terça-feira, 4 de novembro de 2014

Parte I

Despedaçaste-me como uma flor imunda
Calaste-me com tua arma suja
Devoraste-me com sua estupidez cruel
Repreenda-me quando quanto como
E onde quiseres

Deixaste-me largado humana
Deixaste-me moribundo frio
Deixaste-me fingir teu abrigo
Ou deixe-me apenas
Como sempre faz

Deixe nus que assim sobreviveremos
Não precisemos
De homens sedentos
Querendo ordem ao nosso caos

A força entrópica de minha morte
Está na tua voz minguante quando chama ordem

Essa força que fere e arranca
Onde até amor é violento

Rejeito tuas morais
Galgados nos milênios marcados por Moisés
Onde um cristo crucificado
Serve mais aos seus pastores
Do que ao um riso de amor libertado
Não me digam o triste ditado
Ordem e Progresso
Nem com atos militados
Forjados a indústria bélica

Choro mais pelo amor
De um filho negado
Ao rancor nas tuas línguas
Marcado


Não me volte ao passado
Nossos corações andam
Destruídos demais
Inclusive por uma historieta
Escrita em cinco atos

Nossos corações andam destruídos demais
E não reconstruiremos
Tampouco consertaremos
Ao novo busquemos!

O passado,
Cheio de repressões em ditatoriais
Guarda-se e marca-se de Deidades em Deidades
Em nenhuma delas fez deixar de sofrer
Corações despedaçados

Não me falem de eternidades
Ao que morreu certa vez voltou e disse:
  -Não há eternidade!
E depois morreu pela eternidade!
De eterna, já nos basta a morte!
Se dirá os que se dizem Majestades.

Eu estou vivo, eis o que me importa!
Não me traga teu conceito de humano bélico
Pois de sintético nossos braços
São alimentados
De transmissões de TV e ondas de rádio

Não me corrijam o português
Nem a rima
Como poesia: Sou fluxo...

Despedaça-me,
Sou uma pétala moribunda
Que grita e grita e grita
E não tem o peito acalentado
Que sonambulado cansado
Enriquece teu sorriso esboçado

Mas o teu sorriso, esboçado
Bate diante do meu, que luta
Não me perco
És tu que me perdes
Quando cansas deste amor
Violento por ti acostumado
Dele, nos libertemos!

Por que ao choro dos inocentes
O amor e a justiça são culpados
Quando chamados
Se mostram ausentes

Despedaça-me como fazes com flor
Larga-me como uma moribunda
Deixe-me dormir no sofá
Ou numa esquina longe da tua calçada
Onde podes me ver e saber que estou perto
E depois armado você...
Eu mal amado...

Disse-me  a Astrologia
Que eu era possessivo
Eis minha possessividade
Uma par de calçados furados!

Deixe-me longe,
Mas não terei filhos
Aos filhos alheios tenho caminhado
Assim eu faço

Tu tens filhos e não os ama, de fato
Enquanto lutamos por um mundo sustentado
De modo sustentável
Tu pensas numa herança que só a ti agrada
Ao teu filho
Aos herdeiros
Nem todo ouro poderá ser contado
De fato

Não preciso clamar piedade no templo Eldorado
Para saber que amanhã vem o amanhã
Não me interessam as chamas Kármicas

A mim, meus caros
Estarei só
Ciente
Conceito de Eldorado
Ao pobre inventado

A tristeza que me acompanha
Amanhã comigo acorda
Pelo dia comigo trabalha
E novamente me plagio
Abriu uma segunda vez
A caixa dos males Pandora
E viu-se nela vazio
Pois a esperança partiu mundo a fora

Amanhã continua a luta
A este vão execício de escrever poesia
Em nossos corações
O vazio um pouco preenchido
Não com esperança
Mas com labuta

Vislumbro sonhos
E ainda um amor e um filho
Sou apenas um trabalhador

Despedaçaste-me como uma flor
Esqueceste-me ao relento
Largaste-me de qualquer modo
Em qualquer esquina
Oh! Ausentes justiça e amor

Como Poesia: Sou fluxo...

Rio de Janeiro, 04/11/2014
Edgar de C. Santana






















segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Passadas Perdidas


Longas caminhadas
Ruas passam

Voz ecoa
Vira diário
Registro de amor
Amargura
Poesia

Vento gelado anuncia
Não entendo

Praças limpas
Distorcem das que vi dias atrás

Outras ruas
Outros passos perdidos
Eu inquieto
Para lá e para cá

Vou a algum lugar
Para onde voltar?

Não sei se para mim ou
Para um lar
Que não posso entrar

Sinto como se estivesse preso nas ruas
Olhando o lar pelos olhos da imaginação
Imaginando como está
O que já foi realizado

Na realização que me senti outrora
Mantenho-me na saudade
Vislumbrando o que virá

Estranha ansiedade de dormir e acordar

Perdida,
Poesia ainda mais perdida
Não deixa de ser assim
Poesia construída.

Edgar de C. Santana

15/07/2014

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Os encontros de um caracol aventureiro



Federico Garcia Lorca

Há doçura infantil
Na manhã quieta.
As árvores estendem
Seus braços para a terra.
Um vapor tiritante
Recobre as sementeiras,
E as aranhas de seda
- raias no cristal limpo
Do ar –
Pela alameda
Recita uma nascente
Entre as ervas seu canto.
E o caracol, pacífico
Burguês da vereda,
Ignorado e humilde,
A paisagem contempla.
A divina quietude
Da natureza
Lhe deu valor e fé.
E olvidando os pesares
De seu lar. Desejou
Ver o final da senda

Pôs-se andar e internou-se
Em um bosque de heras
E de urtigas. No meio
Havia duas rãs
Velhas a tomar sol,
Entediadas, enfermas.

“Esses cantos modernos
- murmurava uma delas –
São sem préstimo”
“Todos, amiga – lhe contesta
A outra rã, que se achava
Ferida e quase cega –
Quando eu era jovem eu cria
Que se ao fim deus ouvisse
Nosso canto, teria
Compaixão. Meu saber,
Pois já vivi eu muito,
Faz que nele não creia.
Eu já não canto mais...”

As duas rãs se queixam
Uma esmola pedindo a uma jovem rã
Que presumida passa
As ervas afastando

Ante o bosque sombrio
O caracol se aterra.
Quer gritar mas não pode.
As rãs dele se acercam.

“É uma mariposa?”
- Pergunta a quase cega –
“Tem um par de chifrinhos –
- A outra rã responde.  –
É o caracol. Vens.
Caracol, de outras terras?”

“Venho do meu lar e quero
Logo a ele regressar”
“És um bicho bem covarde
- Exclama a rã que é cega –
Não cantas nunca?” “Não canto”
- Diz o caracol. “Nem rezas?”
“Tampouco: nunca aprendi”
“E nem crês na vida eterna?”
“Que è isso?”
“É viver sempre
Dentro d’água mais serena,
Junto da terra florida
Que rico manjar fornece.”

Em menino a mim me disse
Minha pobre avó um dia
Que ao morrer certo iria
Ficar nas folhas mais tenras
Mais elevadas das árvores”

“Herege era tua avó
A verdade te dizemos
Nós. E nela hás de tu crer”
- Dizem as rãs furiosas.

“Por que quis vir ver a senda?
- geme o caracol- Sim, creio
Para sempre na vida eterna
Que vós me pregais...”

As rãs
Mui pensativas se afastam,
E o caracol, assustado,
Vai-se perdendo na mata

As duas rãs mendigas
Como esfinges se quedam.
Uma delas pergunta:
“Crês mesmo na vida eterna?”
“Eu não” – Responde mui triste
A rã ferida e que é cega.
“Por que dissemos, então
Ao caracol que ele cresse?”
“Porquê... eu não sei porquê
- Lhe respondeu a rã cega –
Fico cheia de emoção
Ao escutar a firmeza
Com que chamam os meus filhos
A Deus do fundo da acéquia...”

O pobre caracol
Volta atrás. Na senda agora
Um silêncio ondulatório
Vem manando da alameda.
Com um grupo de formigas
De cor rubra ele se encontra.
Vão-se muito alvoroçadas
Atrás de si arrastando
Outra formiga que tem
Quebradas suas antenas.
Mas o caracol exclama:

“formiguinhas, paciência.
Por que assim maltratais
Essa vossa companheira?
Contai-me que coisa fez.
Julgarei em consciência.
Conta-o tu, formiguinha.”

A formiga, meio morta,
Disse muito tristemente:
“É que as estrelas eu vi”.
“que são as estrelas?” – Dizem
As formigas inquietas.
E o caracol pergunta,
Pensativo: “As estrelas?”
“sim – repete a formiga –
Sim, eu vi na árvore mais alta
Que se encontra na alameda,
E vi milhares de olhos
Dentro das minhas trevas”.
O caracol pergunta:
“Mas que são as estrelas?”
“São luzes que levamos
Sobre nossa cabeça”
“Nós outras não as vemos”
- As formigas comentam.
E o caracol: “Minha vista
Só pode alcançar as ervas”

Mas as formigas exclamam,
Movendo suas antenas:
“Vamos matar-te; tu és
Preguiçosa e és perversa.
Tua lei é o trabalho.”

“É certo que vi as estrelas”
- Diz a formiga ferida.
E o caracol, sentencia:
“Deixai que ela se vá,
Cumpri vossas tarefas.
É possível que em breve
Sem força a morrer venha.”

Pelo ar duçoroso
Uma abelha cruzou.
Na agonia, a formiga
Aspira a tarde imensa,
E diz: “É a que vem
Levar-me a uma estrela.”

As demais formiguinhas
Fogem ao vê-la morta

O caracol suspira
E aturdido se afasta
Cheio de confusão
Pelo eterno. “A senda
Não tem fim – ele exclama –
Talvez até as estrelas
Se chegue por aqui.
Mas minha grã moleza
Não deixará que chegue
Não pensemos mais nelas.”

Tudo brumoso estava
De sol débil e névoa.
Longínquos campanários
Chamam gente á igreja,
E o caracol, pacífico
Burguês da vereda,
Aturdido e inquieto,

A paisagem contempla

Posse do se doa.

Mas não posso impedir a poesia
De florescer

Broto
Na dificuldade
Rasga a terra
Faz-se vivo

Folhas, frutos, flores
Sei de suas dificuldades

Como dói nascer

Quanto choro e quando grito
Da mãe é preciso
Ao rasgar a criança o útero
Para que case com o choro
Acalentado do primeiro abraço
Num laço de um peito de pai

Como dói
No coração humano
Deixar nascer o amor
E humanamente
Deixar-se amar

Deixem-se crescer
Corações humanos
Em que cada um
Um útero cheio
De amor a nascer

Nos seus olhos
Viver numa lágrima

Raízes na profundidade
Rasgando a terra
Necessidade de amarmos

Tristezas humanas
São os corações cheios de desprezo
Deixa-se matar a raiz
E de pouco em pouco o amar
Que lhe recai

Despreza a si próprio
Quando se despreza o que lhe ama

Um pouco da nossa infelicidade
Suscita pensando
Que possuímos o amor
Impossível é
Ter posse do que se doa.


Rio de Janeiro, 29/09/2014.

Edgar de C. Santana

domingo, 28 de setembro de 2014

Salve sua manhã
Criaremos nossos filhos 
Leremos livros dos colegas  
Do mundo 
Portanto amor,
Não precisa chorar
Eu estou tão perto
Mesmo que suas mãos
E seus medos não possam
Me tocar
Eu seguro em seu coração
E junto a ele posso deitar
Vocês, não me deixem ir
O mundo não foi feito
Para uma vida sozinha
Falo-me
Tranco-me
Grite-me
Onde eu não possa entrar 
Paciência
Uma pequena paciência
Diga a uma mulher a sua dor 
Ou deixe-se ir
Relembro que meus cachos 
São afinados com os dele
Os meus pequeninos
Como a sua tenra idade 
Natural e romântica
Como eu vejo.
Ouvimos o som do mundo
Em nossa face
Por um longo tempo
Mas Deus nunca escureceu
E esqueceu o nosso caminho
E se queres alguma libertação 
Então grite seu ódio
Na Central do Brasil
Onde crianças choram
Sua fome e seu furto
Nas grades do lado de fora
Do poder Central
Realmente
A lua me chama
E não posso aqui dizer
No amai-vos uns aos outros 
Que a Alegria amo.
Só quem leu sabe
Quem tem ouvidos ouça
Quem tem olhos leia
Ou então,
Coma sua batata frita
Tome sua pinga
Viva de forma vadia
Uma vida vazia.
Reproduzindo escolhas
Não escolhidas
Viver é um direito de todos, 
Enfim.

Rio de Janeiro, 28/09/2014
Edgar de . Santana