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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
CAMINHOS DE APATIA E LUTA
Falo da maldade sem inocência
Falo do incêndio
E do rancor guardado
Falo da vida sem paixões
Falo da dor, do ódio
Da melancolia
Do esquecimento
E da conversa em mão única.
Arrogância, estupidez, Falsidade
Falo
Caga e andar para o nós,
Para o silêncio forçado
Para a fala-silencia
Falo da perda da ausência
Da mentira, egoísmo, ciúme, obsessão
Controle,
A Miséria
Miséria da riqueza há,
Pobreza de espírito
O sorriso que chora
O choro que não cai
Assim,
Amor, paz, alegria, paixão
Não pague
Por toda essa regular irregularidade
De uma irregular regularidade
Falo Falo Falo
E no fim
Calo!
Edgar de C. Santana
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
UM PEQUENO EXEMPLO
Estávamos eu e uns
amigos, tomando uma cerveja e comendo uns salgadinhos no Boteco do seu Marinho.
Conversávamos sobre qualquer coisa, de pescaria aos freios dos carros; das
nossas famílias até a milícia. Me mantinha taciturno, pois lia algumas notícias
no jornal e ouvia o forró que tocava no rádio de um carro parado na frente do
boteco, até escutar uma série de baboseiras sobre o Botafogo:
- Cara o que é o Botafogo? O Botafogo nunca
ganhou nada!
- Meu irmão, os caras só fala de Garrincha e
Nilton Santos.
- Fala aê, quantos títulos o Botafogo ganhou
nos últimos 20 anos?
- Nunca ganhou um mundial. No Rio, só o
Flamengo ganhou.
- Ganhou só um título roubado em cima do
Santos.
Eu gostaria de me manter
calado, mas procuro sempre dialogar de um modo que esclarecesse sobre os
problemas do imediatismo, da frivolidade e da pobreza de espírito:
- Não é bem assim, não podemos isolar a
história do presente. Ao olharmos para o histórico, não podemos minimizá-lo com
o hoje, tão pouco isolar os fatos dos seus respectivos contextos.
- Pronto lá vem o Botafoguense.
- Não é rapaz, olha, o Botafogo ganhou uma
pequena Taça do Mundo - Jogando contra os maiores times do mundo.
- Isso é mentira – Disse um deles. Todos
riram, sequer conheciam a história dos seus próprios clubes e tampouco tinham
curiosidade sobre a História alheia.
- O cara quer contar história de quando nem
era nascido.
- Histórias que o avô dele contava.
- Mas a história está presente não? – Questionei.
- Que nada, eu quero saber do aqui e agora!
Quem vive de passado é Museu! – E riam alto.
- Estou querendo explicar a vocês que não faz
sentido pensarmos só aqui e agora, ou então, ninguém poderá falar da história
dos seus times, além da história que é construída agora.
- Então fala aí, quantos nacionais o teu time
ganhou?
- Mas um campeonato carioca e um Rio-São Paulo
tinha mais valor do que um nacional...
- Ah para!
- Quando isso? Nunca!!
- Campeonato brasileiro é brasileiro...
- Teu time nunca jogou uma Libertadores!
- Em 68 chegamos invictos até a Semifinal.
- Todos riram novamente.
- Todos riram, riram alto, falaram mais uma
meia dúzia de piadas.
- O problema é que certos fatos, as instituições
atuais não reconhecem... e desprezam o contexto histórico... – Era inútil, já
riam alto, calei por um tempo, logo passei a rir com eles, sabia que o que pensavam
era tão imediato, frívolo e até certo ponto arrogante. Pelo menos critiquei
procurando não ser fútil e estúpido, e nessa hora, nessa tentativa de lutarmos
contra a pobreza de espírito, até mesmo o riso luta.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Ele acordou, se vestiu apressadamente, correu como um louco
para não perder o trem. Quando chegou na estação percebeu que tinha esquecido a
carteira. Deu um soco no ar, mais um dia chegaria atrasado... era o sufoco de
dormir poucas horas por noite. Voltou para casa cabisbaixo, olhando-se em volta
no olhar dos outros:
- Mais um dia de
renda perdida...
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
UMA MÃE
Ela não fala. Deixa-se
por um tempo. Pensa no filho que só os outros podem ficar. Pensa no trabalho.
Pensa nas discussões abortivas, pensa nas discussões maternas... No meio disso
tudo ela está, assim como esses e outros caminhos estão no meio junto a ela.
“Às vezes a luta pelos
direitos são mais simples que viver a liberdade. O problema nem sempre é a
escolha, na verdade, quanto maior a possibilidade de escolhas, melhor. O
problema é depois da escolha”
O telefone toca, ela
liga e ligam de volta, enquanto fala, o suor toma o desenho dos lábios. Ela
responde já mecânica, após tentar se fazer ouvida, em vão, ela tenta encontrar
meios, interroga, exclama, analisa, diz, luta, explica. Eu vejo e penso: “Não é
possível sermos sozinhos, a solidão não comporta multifaces... a solidão é a
solidão, se manifesta de modos distintos, sobre uma mesma faceta”
Ela discorda, seu
silêncio responde à Deus, à ausência, à todos, à morte e ao fumo, à vida e ao
amor. Ascende o cigarro, lembra da ausência de saúde defronte uma morte
iminente. Ela deixa que eu pegue em sua mão, mas meus dedos são grandes demais,
são pesados e calejados, não é a minha mão que ela desejaria agora, e agora são
tão poucos elementos, misturados a uma vontade reprimida.
Quatro meses com o
filho e uma vida inteira se resume a um auxílio. Nós, machistas e feministas
proletários andamos tanto... não é possível que quatro meses para uma vida
inteira, ganhar dinheiro seja algo simples.
Nós machistas e
feministas unidos! E as palavras dificultam. O pensamento subjetivo se
interessa agora em se propagar subjetivamente, confundindo como ela confusa
está. Ser um pensamento indeciso, por que de diversas fontes brotam amarguras,
e no final de uma sentença, dizer-se: Pronto, já esqueci!
Uma vida inteira se
resume a ganhar dinheiro. Criam-se novos feudos para isso, e novos escravismos sob
a égide da desculpe esfarrapada de que escolhemos, de que optamos, quer dizer então
que não posso ser mãe? Por isso condenam o aborto? Por isso desejam o aborto?
Confusão, nossos
pensamentos, meu e dela se confundem. Eu sou um homem, ela é uma mulher, uma
vida inteira vívida para um feudo. “Ah! que repostas busco? Será que olhar a essência
basta?”
Não, é preciso mais. É
preciso a solidão, cada um por si! Meu filho deve crescer sozinho, passando de
mão em mão por cabeças que não sabem o que fazer com o filho dos outros... que
roupa levar? Pode ir? Pode ser? “Sim, a decisão final é minha” e no fim, pergunta-se:
onde está a mãe desta criança? Fala-se então do emprego, das dificuldades, que
a mãe precisa ganhar dinheiro, estudar; mas sobre tudo, o que fica é a decisão
final da mãe, e sobretudo, o que fica é a pergunta: Onde está a mãe dessa
criança?
Nosso cotidiano é mesmo
cheio de tragédias Gregas " Eu tenho que escolher entre não ser mãe, e não
poder ser mãe; não ser mãe é também não poder ser mãe, resumindo não ter um
filho presente em ambos os casos. E falo ser mãe em todos os casos, de todos os
filhos que vivem no cadafalso da ausência de um e outro, e outros vivos, não
importa a idade, não importa se a mãe será sempre chata e o filho sempre uma
criança.
Ela sabe que a
liberdade pode ser vista como um direito, mais também com um dever. Podemos olhar
como um paradoxo, mas também como uma tragédia, uma conquista e um fardo.
Liberdade é liberdade. Não possui faces, se manifesta em diversas formas.
Mas é tão desigual, mãe é mãe. Mas será que
todas as mães são iguais? Não somos iguais, e assim, mãe ganha multifaces. Ela
nega as multifaces, por pensar e saber que mãe é mãe, mas que não são iguais,
ela sabe que não é mãe como a mãe dela. Ela sabe que não é mãe como as outras
mães.
No escritório ela liga
para a avó do seu filho, pergunta-lhe pelos netos. Um retrato do pé do filho no
canto da mesa. Pensa no filho, no emprego, quatro meses apenas. Foram apenas
quatro meses... volve-lhes paradoxos de sua liberdade e solidão; situações
conflitantes, escolha, opção.... Apesar de uma melancolia, ela olha o retrato, e
um breve sorriso desponta e luta, algumas gotas de suor escorrem para seus
lábios. Um breve sorriso desponta e luta.
Rio de Janeiro,09/07/2014
Edgar de C. Santana
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